Copo de chá com colher de madeira e ervas em volta.

A tradição de preparar chás com plantas faz parte da cultura brasileira há gerações. Muitas famílias cultivam o hábito de usar ervas do quintal para tratar problemas de saúde, acreditando que produtos naturais são sempre seguros. Porém, o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas registra milhares de casos de intoxicação por plantas no Brasil todos os anos, principalmente relacionados ao consumo de chás preparados com espécies tóxicas.

Algumas plantas ornamentais muito comuns em jardins brasileiros contêm substâncias químicas perigosas. Quando transformadas em chá, essas plantas podem causar desde mal-estar até complicações graves e fatais. O calor da fervura não elimina a maioria dessas toxinas, que continuam ativas mesmo depois do preparo.

Espirradeira (Oleandro)

A espirradeira é uma planta muito popular em jardins, reconhecida por suas flores coloridas que podem ser rosa, brancas, vermelhas ou amarelas. Todas as partes desta planta contêm substâncias que afetam o coração, chamadas glicosídeos cardiotóxicos.

Quando consumida em forma de chá, a espirradeira causa enjoo intenso, vômitos, diarreia, tontura e problemas nos batimentos do coração. Em situações graves, pode levar à morte. Estudos médicos documentam casos fatais envolvendo a ingestão de apenas algumas folhas desta planta.

Comigo-Ninguém-Pode (Difenbáquia)

Esta planta de folhas grandes e decorativas, com manchas verdes e brancas, é muito comum em ambientes internos como salas e escritórios. O problema está nos cristais microscópicos de oxalato de cálcio presentes em toda a planta, que funcionam como pequenas agulhas.

Ao ingerir qualquer parte da comigo-ninguém-pode, esses cristais perfuram os tecidos da boca e garganta. A pessoa sente queimação imediata e forte, seguida de inchaço. Em inglês, a planta recebe o nome de “dumb cane” (planta muda) porque o inchaço pode ser tão grande que impede a fala. Casos graves podem causar dificuldade para respirar. Ferver não elimina esses cristais.

Trombeta-de-Anjo (Saia-Branca)

As flores grandes e pendentes da trombeta-de-anjo são perfumadas e atraentes, mas a planta contém alcaloides muito perigosos: escopolamina, atropina e hiosciamina. Essas substâncias afetam diretamente o sistema nervoso.

O consumo de chá feito com esta planta causa alucinações, confusão mental, febre alta, aceleração dos batimentos cardíacos, convulsões e pode levar ao coma. A diferença entre uma quantidade pequena e uma quantidade fatal é muito pequena, tornando impossível determinar uma dose segura.

Mamona (Carrapateira)

Muitas pessoas conhecem o óleo de rícino, produto comercial usado como laxante. Entretanto, a planta da mamona em sua forma natural é extremamente perigosa. As sementes contêm ricina, uma das toxinas mais potentes encontradas na natureza.

Apenas quatro a oito sementes mastigadas podem ser fatais para um adulto. A ricina destrói as células do corpo ao bloquear a produção de proteínas. Os sintomas incluem vômitos violentos, diarreia com sangue, desidratação e falência dos órgãos. Não existe antídoto específico. O óleo de rícino vendido em farmácias é seguro porque passa por processos industriais que eliminam completamente a ricina.

Chapéu-de-Napoleão (Ainda-Bem)

Esta planta ornamental produz flores amarelas e frutos parecidos com castanhas. Toda a planta contém substâncias cardiotóxicas similares às da espirradeira. Crianças frequentemente se intoxicam ao confundir os frutos com castanhas comestíveis.

O consumo causa enjoo severo, vômitos, dor abdominal e alterações graves nos batimentos cardíacos, que podem ficar muito lentos ou muito rápidos. As toxinas resistem ao calor e continuam perigosas mesmo depois da fervura.

Confrei (Consolda)

O confrei tem histórico de uso medicinal para cicatrização e problemas ósseos, transmitido através de gerações. Porém, estudos científicos modernos demonstraram que a planta contém substâncias que danificam o fígado de forma grave e irreversível.

O uso prolongado de chá de confrei pode causar doença veno-oclusiva hepática, cirrose e até câncer de fígado. O problema é que os danos se acumulam e muitas vezes só aparecem depois de muito tempo de uso. Por isso, a ANVISA proibiu o uso interno desta planta no Brasil. Confrei só pode ser usado em pomadas e compressas, nunca em chás.

Losna (Absinto)

A losna possui longa tradição como planta medicinal, especialmente contra vermes e problemas digestivos. A planta contém tujona, uma substância que afeta o sistema nervoso.

A bebida absinto, feita com losna, foi proibida em vários países devido aos problemas causados pela tujona. O chá caseiro pode conter níveis muito altos desta substância, causando convulsões, tremores e lesões nos rins. Mulheres grávidas devem evitar completamente esta planta, pois ela pode causar aborto e má-formação do bebê.

Louro-Cereja (Louro-Inglês)

Esta planta é frequentemente confundida com o louro verdadeiro usado na cozinha, e essa confusão pode ser fatal. O louro-cereja contém substâncias que liberam cianeto no corpo quando ingeridas.

O cianeto é um veneno muito conhecido que bloqueia a respiração das células. Os sintomas incluem falta de ar, tontura, confusão, convulsões e perda de consciência. Para diferenciar: o louro verdadeiro tem cheiro forte característico e folhas mais estreitas, enquanto o louro-cereja tem folhas largas e brilhantes com leve cheiro de amêndoa.

Coroa-de-Cristo

Planta suculenta muito resistente e comum em jardins brasileiros, a coroa-de-cristo tem flores pequenas e coloridas. Quando cortada, libera um líquido branco (látex) que contém substâncias muito irritantes.

O chá feito com qualquer parte desta planta causa queimação intensa na boca e estômago, enjoo, vômitos, diarreia forte e dores abdominais. O látex pode causar queimaduras na pele e cegueira temporária se atingir os olhos. O calor não neutraliza essas substâncias.

Mandioca-Brava

A mandioca é alimento básico no Brasil, mas existem dois tipos: mandioca mansa (também chamada de doce) e mandioca brava. A mandioca brava tem níveis muito altos de substâncias que liberam cianeto, podendo ter até 100 vezes mais que a variedade mansa.

O chá de folhas de mandioca é sempre tóxico, independente do tipo. Os sintomas incluem enjoo, vômitos, dificuldade para respirar, confusão e convulsões. Casos de intoxicação acontecem principalmente em áreas rurais quando há confusão entre os tipos ou preparo errado.

O Mito do Natural Seguro

A ideia de que tudo que é natural é seguro representa um equívoco perigoso. As plantas desenvolveram toxinas ao longo de milhões de anos como defesa contra animais que poderiam comê-las. Essas substâncias químicas interferem com funções vitais do corpo humano.

O fato de uma prática ser tradicional não garante que seja segura. Muitas tradições surgiram quando não existia conhecimento científico sobre toxicologia. Hoje a ciência permite identificar essas toxinas e entender como elas afetam o organismo.

Como Agir em Caso de Intoxicação

Se houver suspeita de intoxicação por planta, o primeiro passo é ligar para o Centro de Informação e Assistência Toxicológica através do número 0800 722 6001, que funciona 24 horas por dia em todo o Brasil. Se possível, guardar uma amostra da planta para ajudar na identificação.

Nunca provocar vômito sem orientação médica, pois em alguns casos isso pode piorar a situação. Procurar atendimento médico imediatamente, levando amostra ou foto da planta se possível.

Opções Seguras de Chás

Felizmente, existem muitas plantas comprovadamente seguras para fazer chá. Camomila, hortelã, capim-cidreira, erva-doce e gengibre são exemplos de plantas com longa história de uso seguro.

Quando possível, comprar chás de marcas conhecidas oferece mais segurança, pois esses produtos passam por controle de qualidade. Se cultivar plantas medicinais em casa, certificar-se da identificação correta usando o nome científico, não apenas o nome popular, pois este pode variar muito de região para região.


Fontes Científicas e Institucionais

  1. Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) – Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) https://sinitox.icict.fiocruz.br/
  2. Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) https://www.fcm.unicamp.br/fcm/ceatox
  3. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) – Regulamentação de Plantas Medicinais https://www.gov.br/anvisa/pt-br

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