A 30 quilômetros de Amsterdã, na cidade de Almere, existe um experimento urbano que desafia tudo o que conhecemos sobre planejamento de cidades. Em Oosterwold, um bairro de 4.300 hectares em pleno desenvolvimento, os moradores têm liberdade quase total para construir suas casas, organizar suas ruas e definir suas comunidades. Mas essa liberdade vem com uma exigência inegociável: pelo menos 50% de cada terreno deve ser dedicado à agricultura urbana. Esta não é apenas uma recomendação ou incentivo. É uma regra fundamental que transforma cada residente em um agricultor urbano, criando o que pesquisadores chamam de maior projeto de agricultura urbana do mundo.
A Origem de um Conceito Revolucionário
O conceito de Oosterwold surgiu em 2008, quando o escritório de arquitetura MVRDV, liderado por Winy Maas em colaboração com o então vereador Adri Duivesteijn, foi contratado para desenvolver uma estratégia para o crescimento de Almere. A cidade, construída sobre terras recuperadas do mar a partir dos anos 1970, havia se tornado um exemplo típico de urbanização suburbana de baixa densidade e pouca diversidade.
Almere planejava adicionar 60.000 casas e 100.000 empregos até 2030, em parte para absorver o desenvolvimento da vizinha Amsterdã. O desafio era claro: como crescer de maneira diferente, evitando os erros do passado e criando comunidades mais equilibradas e sustentáveis?
Maas e sua equipe propuseram novas comunidades que adicionariam diversidade ao tecido urbano existente, incluindo Oosterwold, inicialmente chamado de Freeland. Em vez de um plano urbano tradicional, a MVRDV imaginou um conjunto de regras que essencialmente se traduziam em autossuficiência, respeito aos vizinhos e aplicação de porcentagens de uso para cada lote.
As Regras do Jogo
Para preservar o caráter rural, foram estabelecidos limites: 18% para construções, 8% para estradas, 13% para espaços verdes públicos, 2% para água e 59% para agricultura urbana. Esses números não são apenas diretrizes, mas requisitos legais que cada proprietário deve cumprir.
Jan Eelco Jansma, pesquisador da Wageningen University & Research que foi fundamental na promoção da ideia de integrar agricultura urbana no desenvolvimento de Oosterwold, afirma: “Esta regra, o requisito de produzir alimentos em pelo menos 50% da sua propriedade, é única.” Em nenhum outro lugar do mundo existe um projeto desta escala onde milhares de pessoas se comprometem a usar metade de suas terras para cultivar alimentos.
Mas a agricultura é apenas uma parte do conceito revolucionário. Os futuros moradores não apenas determinam suas próprias casas, mas também são responsáveis pela construção e gestão de estradas, caminhos, áreas verdes, água e espaço público. Não há infraestrutura subterrânea prévia de eletricidade e tubulações de água. Não há rede viária construída. Essa realidade leva a uma infinidade de formas, variações de tamanho e edificações que podem ser posicionadas em qualquer lugar do lote.
A Liberdade com Responsabilidade
Desde seu lançamento em 2011, isso resultou em uma multiplicidade orgânica de formas, cores e materiais. O bairro apresenta um panorama surpreendentemente diverso: yurts, casas construídas com pneus de carro preenchidos com areia, bangalôs austeros, casas feitas de contêineres, uma casa giratória, casas estilo castelo e tiny houses alternam com vinhedos, pastos para ovelhas, hortas, uma padaria e uma pizzaria, tudo delimitado por passagens verdes e bordas floridas.
Os primeiros habitantes se autodenominam pioneiros, pois tiveram que inventar seu próprio método. Construir em terras agrícolas começou como um pesadelo logístico, e para muitos, ficou repentinamente claro que o preço baixo da terra vinha acompanhado de uma urgência de auto-organização.
Os provedores de infraestrutura holandeses para água e eletricidade não lidam com indivíduos privados, o que significa que até mesmo a arqueologia, sempre necessária nos Países Baixos para obter uma licença de construção, teve que ser organizada por esses pioneiros, incluindo a construção de estradas que levam às suas terras.
O Desafio da Agricultura Urbana
A exigência de dedicar metade do terreno à agricultura parece simples no papel, mas a realidade é mais complexa. Muitos moradores carecem de experiência agrícola, e no início não havia muita orientação disponível. Jansma descreveu o processo de planejamento como “um pouco laissez-faire”, deixando muitos descobrindo as coisas por conta própria.
Para abordar esses desafios, o Oosterwold Food Hub foi criado, gerenciado pela autoridade local de Almere e pela cooperativa alimentar de Oosterwold, fornecendo recursos, workshops e compartilhamento de conhecimento para ajudar os moradores a melhorar suas práticas agrícolas. Yolanda Sikking, gerente de participação de Oosterwold, observa: “Algumas pessoas fazem isso muito bem, mas outras não. Decidimos que precisamos encorajar mais pessoas a melhorar.”
A cooperativa, presidida por Jan-Albert Blaauw, um dos primeiros moradores, busca dar suporte prático aos residentes. Segundo ele, a organização ajuda os recém-chegados a preparar o solo, fornece plantas, explica o controle de ervas daninhas e ensina como colher. A visão é ter um local central onde seja possível entregar, coletar e distribuir produtos, além de oferecer workshops.
Diversidade Agrícola e Alimentar
As técnicas agrícolas variam amplamente, de pomares a estufas e pequenos pastos, com cada morador contribuindo com suas próprias ideias para o sistema geral. Marco de Kat, que se mudou para Oosterwold em 2017, cultiva uma variedade de produtos, incluindo maçãs, peras, pimentões, manjericão, beterrabas e couve-flor em seu lote de 800 metros quadrados. Essa abordagem permite que a família dependa de vegetais cultivados em casa durante todo o ano, mesmo nos meses de inverno.
A meta ambiciosa de Oosterwold é fornecer 10% da cesta de alimentos de Almere. Em um contexto onde a cidade tem cerca de 208.000 habitantes, isso representa uma contribuição significativa para a segurança alimentar local. A ideia é aproximar produção e consumo de alimentos: morangos frescos em junho, mirtilos em agosto e belas hortaliças de inverno durante o frio. A diferença no sabor é imediatamente perceptível quando os alimentos são cultivados no próprio terreno ou na vizinhança.
A Vida em Comunidade Auto-organizada
A auto-organização vai muito além da produção de alimentos. A comunidade é projetada em torno de uma abordagem colaborativa para o desenvolvimento, onde os moradores assumem a responsabilidade de construir estradas, escolas, sistemas de resíduos e até mesmo nomear ruas. Desde seu estabelecimento oficial em 2017, Oosterwold cresceu para cerca de 5.000 residentes, com uma lista de espera para novos moradores.
Esta liberdade de organização traz consigo desafios significativos. Estudos acadêmicos identificaram problemas relacionados à provisão de bens públicos, coordenação de serviços, manutenção de padrões de qualidade e garantia de equidade entre os lotes. A coordenação do manejo de águas residuais pelos cidadãos e a provisão de bens públicos e externalidades são alguns dos obstáculos que a comunidade enfrenta continuamente.
No entanto, soluções coletivas estão sendo estabelecidas para lidar com esses desafios. A comunidade demonstra a importância contínua da ação coletiva, tanto na provisão e gestão de bens e serviços públicos quanto na prevenção de comportamentos de caronistas e uso ineficiente do espaço.
Impactos Ambientais e Econômicos
O foco de Oosterwold na agricultura urbana traz vários benefícios econômicos. Ao cultivar seus próprios alimentos, os moradores economizam em custos de supermercado e contribuem para a economia local. Negócios como o Atelier Feddan mostram que a agricultura urbana também pode impulsionar a criação de empregos e reduzir despesas com transporte de alimentos.
Os valores imobiliários em Oosterwold têm aumentado à medida que a área se torna conhecida por sua sustentabilidade, com muitos potenciais compradores atraídos não apenas pelas casas em si, mas pelo estilo de vida e valores associados à vida ecologicamente consciente.
No entanto, nem tudo são flores. Um estudo de 2024 conduzido por Jason Hawes levantou preocupações sobre as emissões de carbono geradas durante o desenvolvimento inicial da infraestrutura, apontando que os estágios iniciais da agricultura urbana podem produzir emissões mais altas em comparação com métodos agrícolas tradicionais. Para abordar isso, os moradores são encorajados a usar materiais recuperados e projetar seus lotes para sustentabilidade a longo prazo, com Hawes afirmando que “fazer as escolhas certas de infraestrutura desde o início é fundamental para a sustentabilidade a longo prazo.”
O Caráter Único do Desenvolvimento Orgânico
O que diferencia Oosterwold de outros projetos de planejamento urbano é sua natureza orgânica e em constante evolução. Não há data de conclusão definida porque o projeto é, por design, um processo aberto e contínuo. A área eventualmente abrigará 15.000 casas com uma população de mais de 30.000 pessoas, estendendo-se também pelo território de Zeewolde.
A variedade arquitetônica é impressionante. Existem lotes com projetos DIY peculiares, como earthships, casas construídas com materiais sustentáveis e reciclados que funcionam de forma autônoma, e bairros inteiros de tiny houses. Há também lotes maiores com casas mais convencionais. Essa diversidade reflete a filosofia central do projeto: dar às pessoas a liberdade de criar seus próprios ambientes enquanto seguem princípios básicos de sustentabilidade e respeito mútuo.
Desafios e Aprendizados
Apesar de seu sucesso relativo, Oosterwold enfrenta críticas e limitações. A ênfase na propriedade privada sobre o acesso compartilhado levanta questões sobre equidade e inclusão. O modelo apoia essencialmente um modelo de consumo baseado em propriedade, em vez de um baseado em acesso. Moradia cooperativa, transporte e alocação de recursos recebem pouca consideração além dos básicos: água, alimentos e saneamento.
A celebração da iniciativa privada sobre a diretiva governamental pode ser atraente nos Países Baixos, com sua tradição de consociativismo, mas pode ser menos atraente em países onde muitos problemas de design urbano são agravados, se não causados, por uma devoção singular à ideologia de livre mercado.
Pesquisas indicam que leva tempo para os moradores adotarem a agricultura urbana como uma prática substancial em seu estilo de vida heterogêneo. Um estudo de 2022 que combinou uma pesquisa online com análise de fotos aéreas revelou que a maior parte da agricultura em Oosterwold pode ser considerada um tipo de jardinagem de hobby ou estilo de vida, não produção agrícola em escala comercial.
Lições para o Futuro
Moradores e especialistas enfatizam o potencial de replicabilidade desta forma alternativa de viver. Jan-Albert Blaauw afirma que algumas das coisas feitas em Oosterwold poderiam ser implementadas em outros lugares dos Países Baixos e além. O projeto serve como um modelo pioneiro para integrar agricultura em ambientes urbanos, demonstrando o potencial para comunidades autossuficientes e resilientes.
Para novatos interessados no modelo, os moradores aconselham começar pequeno. Não é necessário pensar grande imediatamente. O foco deve estar no cultivo de algumas culturas básicas e na expansão gradual a partir daí. Com uma visão forte e a mentalidade certa, é possível fazer funcionar.
O Contexto Holandês
Oosterwold é particularmente significativo no contexto do planejamento urbano holandês. Os Países Baixos possuem um dos regimes de planejamento urbano mais sofisticados do mundo, com regulamentação meticulosa até o menor detalhe. Políticas social-democratas criaram um país onde a aparência geral é agradável, limpa e segura, mas que às vezes carece de surpresa, diferenciação e liberdade individual dentro do emaranhado de regulamentos.
Oosterwold representa uma ruptura radical com essa tradição. É um experimento que leva as pessoas a sério e leva a uma abundância de inovação e estilos de vida sustentáveis nos quais a auto-organização prevalece sobre o pensamento de mercado e nos quais terras agrícolas de escala industrial são transformadas em uma paisagem produtora de alimentos em pequena escala.
O Papel do Arquiteto e da Visão Urbana
Winy Maas, o arquiteto principal por trás do conceito, defende cidades mais densas, verdes, atraentes e habitáveis, com uma abordagem de design centrada em ideias inovadoras e sustentáveis definidas pelo usuário para o ambiente construído, independentemente de tipologia ou escala. Sua filosofia questiona se o planejamento centralizado clássico ainda é necessário em tempos de maior individualização e se, em vez disso, uma cidade auto-organizada pode ser imaginada.
O projeto Freeland, como foi originalmente chamado, explora as perspectivas de completa liberação do planejamento urbano. Questiona o que pode ser organizado individualmente e quando precisaremos de nossos vizinhos. Quais são os “terrenos comuns mínimos” de nossos desenvolvimentos? Essas perguntas fundamentais desafiam suposições de longa data sobre como as cidades devem ser planejadas e quem deve tomar essas decisões.
Uma Avaliação Equilibrada
Uma avaliação completa do projeto talvez só seja possível após 30 anos de desenvolvimento, mas enquanto isso, o projeto atraiu os habitantes esperados e os primeiros resultados são melhores do que o previsto. Oosterwold não é uma receita para todos, mas certamente um experimento válido e importante que leva as pessoas a sério e leva a uma abundância de inovação e estilos de vida sustentáveis.
O projeto destaca tanto as possibilidades quanto as limitações da auto-organização urbana. Demonstra que, embora a liberdade e a iniciativa individual sejam valiosas, a ação coletiva e algum nível de coordenação permanecem essenciais. O equilíbrio entre liberdade individual e responsabilidade coletiva é delicado, mas é precisamente nessa tensão que Oosterwold encontra sua identidade única.
À medida que as cidades ao redor do mundo enfrentam crescentes desafios relacionados à segurança alimentar e sustentabilidade ambiental, as lições aprendidas com Oosterwold podem inspirar uma nova onda de comunidades urbanas resilientes e sustentáveis. O experimento holandês demonstra que é possível reimaginar fundamentalmente como vivemos em cidades, integrando produção de alimentos, auto-organização e liberdade individual em um modelo coerente, ainda que imperfeito.
Fontes de Referência:
- https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0264837722001314
- https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/tesg.12267
- https://urbact.eu/articles/oosterwold-example-peri-urban-agriculture-netherlands